Psicanálise vs. Psicoterapia: Compreendendo as Diferenças
- Yan Franco
- 30 de jun. de 2023
- 8 min de leitura
A psicoterapia e a psicanálise são abordagens terapêuticas amplamente conhecidas no campo da saúde mental. Embora compartilhem certos princípios fundamentais, essas práticas divergem em termos de técnicas aplicadas, objetivos terapêuticos e concepções teóricas. É importante pontuar, entretanto, que a Psicanálise também é considerada uma forma de psicoterapia, e o objetivo principal deste texto se concentra em evidenciar as especificidades da Psicanálise em relação às outras técnicas, produzindo uma generalização das diversas abordagens da psicoterapia em torno de alguns aspectos fundamentais.

Fundamentos Teóricos
A psicoterapia e a psicanálise possuem fundamentos teóricos distintos. A psicoterapia (ou melhor, As, psicoterapias), em sua diversidade de abordagens, incorpora uma variedade de teorias e conceitos, como a psicologia humanista, a terapia cognitivo-comportamental, análise do comportamento, terapia sistêmica, entre outras… Evidentemente, todas estas abordagens mencionadas acima guardam profundas diferenças teóricas e conceituais entre si, porém podemos estabelecer a especificidade da psicanálise em relação a elas a partir dos seguintes fundamentos teóricos:
Teoria do Inconsciente A psicanálise tem o foco do seu manejo e intervenção nos processos inconscientes. Pra ela, a parte mais profunda e influente da mente humana. A psicoterapia, embora possa abordar aspectos inconscientes, concentra-se mais nos processos conscientes e atuais do paciente, na busca por soluções práticas.
Experiências infantis A psicanálise considera a infância como palco de uma série de processos de estruturação subjetiva (como a alienação/separação, estádio do espelho, narcisismo, édipo...), por isso, considera este período determinante para a compreensão dos conflitos e sintomas atuais. Nas psicoterapias, o foco pode estar mais voltado para a resolução de problemas imediatos e a melhoria do funcionamento atual, sem necessariamente uma ênfase tão intensa no passado.
A Transferência A psicanálise, na compreensão da relação entre analisando e analista, trabalha com o conceito de transferência, que é a repetição e reedição de relações anteriores de amor e ódio inconscientemente dirigidas para a figura do analista A transferência é explorada como parte do processo terapêutico. Já nas psicoterapias, embora a relação terapêutica também seja fundamental, tratam-se de conceitos diferentes como ''vínculo ou ''rapport'', e não trabalha-se com este conteúdo projetivo inconsciente de sentimentos ambivalentes para com a figura do psicoterapeuta.
A Linguagem Principalmente após os desenvolvimentos de Lacan, a psicanálise passou a dar uma ênfase ainda maior aos fenômenos de linguagem que caracterizam o ser falante. No setting analítico, este trabalho com a linguagem pode ir na direção de explorar possíveis novos sentidos e novos significados para os significantes que o sujeito utiliza-se para narrar a sua história. Um trabalho analítico pode ir na direção de que o sujeito possa ressignificar a sua história através da construção de novos sentidos para os termos e acontecimentos que marcaram a sua vida.
A Associação Livre A psicanálise utiliza a técnica da associação livre, na qual o paciente é encorajado a expressar livremente seus pensamentos, ideias e associações, sem censura ou filtro. A intenção deste método é de facilitar ao máximo a expressão do inconsciente do sujeito através de uma fala menos tomada pela censura e pela moral social. Nas psicoterapias, podem ser utilizadas diferentes técnicas, como questionamentos diretos, exercícios práticos ou estratégias cognitivas para promover a reflexão e a mudança.
O Desejo Um outro conceito central para a psicanálise é a noção de Desejo. Ele é entendido como um desejo inconsciente e simbólico, que está enraizado no sujeito desde o seu nascimento e moldado pelas estruturas da linguagem e da cultura. O desejo para a psicanálise é complexo, envolvendo camadas ocultas de significado e buscando incessantemente sua satisfação, muitas vezes de forma paradoxal. É um desejo que está além do que se pode compreender racionalmente, e seu entendimento é fundamental para a compreensão do sujeito e sua relação com o mundo.
Objetivos
Apesar de cada uma delas guardar uma série de especificidades, de modo geral, as psicoterapias têm como objetivo fortalecer o ego, aplicando diferentes técnicas que buscam uma mudança de comportamento baseada nos processos conscientes. Os profissionais da área abordam e ensinam estratégias para que o indivíduo seja capaz de enfrentar seus medos, transformar a forma como se enxerga e se relaciona com os outros, modificar comportamentos limitantes ou destrutivos, e desenvolver hábitos mais saudáveis.
A maioria das atividades da psicoterapia está relacionada à repetida correção de certos padrões comportamentais que resultaram no surgimento dos "sintomas". Estamos nos referindo ao fortalecimento, expansão ou reforço do ego, tornando-o mais flexível ou mais apto a lidar com as tensões da vida. Isso envolve a repetida explicação, apontando a autodestrutividade não reconhecida, trazendo à tona considerações negligenciadas, libertando a pessoa para atividades construtivas e elaborando planos mais eficazes para o futuro. Em suma, a terapia busca promover uma melhora no bem-estar e na qualidade de vida do indivíduo através de uma gama de variada técnicas e de determinadas orientações / direcionamentos ou produção de novos comportamentos.
No que tange aos objetivos de uma análise psicanalítica, poderia escrever um longo texto apenas listando-os, mas penso valer à pena destacar os seguintes:
Conhecimento do Inconsciente: A análise busca trazer à consciência os conteúdos reprimidos e inconscientes que influenciam o sujeito. Por meio da interpretação dos sonhos, dos atos falhos e das associações livres, busca-se acessar o material inconsciente e compreender seus significados simbólicos.
Rompimento com a Identificação Imaginária: Lacan enfatiza a importância de romper com as identificações imaginárias, que são as construções ilusórias de uma identidade fixa e idealizada. A análise busca desconstruir essas identificações e abrir espaço para uma relação mais autêntica com o próprio desejo.
Desvelamento do Desejo Inconsciente: O objetivo central da análise é a descoberta e a compreensão do desejo inconsciente, que muitas vezes está oculto por camadas de defesas e mecanismos psíquicos. Conhecer esse desejo é fundamental para o sujeito se posicionar diante de seus desejos conscientes e fazer escolhas mais autênticas.
Transformação Subjetiva: A análise visa promover uma transformação profunda na subjetividade do indivíduo. Não se trata apenas de aliviar sintomas ou ajustar-se socialmente, mas de permitir que o sujeito desenvolva uma relação mais livre e responsável com seu próprio desejo, ampliando sua autonomia e liberdade de escolha.
Esses objetivos se diferenciam dos objetivos da psicoterapia em diversos aspectos. Enquanto a psicoterapia muitas vezes se concentra na resolução de problemas específicos, na adaptação ao meio social e no alívio dos sintomas, a análise psicanalítica busca uma transformação mais profunda e duradoura do sujeito.
Posição Analista/Terapeuta

Na psicanálise, o analista assume a posição de objeto na relação transferencial. Isso significa que o analista não se coloca na relação terapêutica com a sua subjetividade. Justamente neste lugar de falta, onde o analista não traz conteúdos de sua pessoalidade, é que o paciente irá ''projetar'' imagos de figuras que têm papel importante na sua neurose.
Além disso, numa análise o Psicanalista deve estar na posição de ''Suposto saber''. Essa posição implica que o analista é percebido pelo paciente como alguém detentor de um conhecimento especial, capaz de compreender e interpretar os enigmas e impasses presentes na vida do sujeito, diminuindo sua angústia. No entanto, é importante ressaltar que o ''suposto saber'' não se trata de um saber absoluto ou onisciente, mas sim de uma posição simbólica atribuída ao analista. Essa posição de suposto saber é fundamental para criar um contexto de transferência, onde o paciente pode depositar suas expectativas e transferir seus afetos, permitindo a emergência de conteúdos inconscientes. O analista, por sua vez, deve lidar com essa posição de suposto saber de maneira ética e responsável, reconhecendo as limitações de seu conhecimento e evitando cair na armadilha do poder ou da autoridade.
O analista não busca fornecer orientações diretas ou soluções específicas para o sintoma, mas sim criar um espaço de escuta e reflexão, permitindo que o paciente explore livremente seus pensamentos, afetos e fantasias. O Psicanalista busca identificar repetições, resistências e mecanismos de defesa inconscientes, auxiliando o paciente na elaboração de suas experiências afetivas e na ampliação do conhecimento do conteúdo dos seus sintomas. Diferentemente da psicoterapia, onde o terapeuta pode assumir um papel mais diretivo, fornecendo orientações e estratégias de enfrentamento para lidar com problemas e comportamentos específicos.
Utilização do Divã
Este é um outro tema que mereceria um artigo inteiro. O Divã pode ser considerado uma herança da técnica da hipnose, ainda nos primeiros anos da exploração Freudiana do inconsciente, em que a pessoa precisaria estar deitada para se submeter ao estado hipnóide.
A função do Divã na análise iniciou por questões de ordem muito prática, como o fato de Freud afirmar em ''Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise'' (1912) que não suportava passar o dia inteiro encarando os olhos diversas pessoas que passavam pelo seu consultório. Ao longo do tempo o uso do divã foi se estabelecendo como uma técnica de manejo clínico.
Nem sempre um paciente estará num Divã numa psicanálise. Geralmente o psicanalista convida o paciente a deitar-se apenas quando o mesmo chegou em um ponto de sua análise em que ele já está produzindo uma fala muito próxima da lógica da associação livre.
O divã é posicionado de forma a evitar o contato visual entre analista e paciente durante a sessão. Isso contribui para que o paciente sinta-se menos inibido e mais livre para explorar seus pensamentos e fantasias sem se preocupar com possíveis '' cara e bocas'', olhares e julgamentos. O paciente deita-se no divã enquanto o analista, posicionado atrás, ouve atentamente os conteúdos trazidos à tona pelo paciente. Essa posição física do paciente promove a livre associação e a redução das inibições, facilitando a emergência de conteúdos inconscientes.
Por outro lado, na psicoterapia, a configuração do espaço pode variar, e a utilização do divã não é uma prática comum, havendo a prevalência da disposição frente-a-frente em 2 poltronas ou cadeiras.
Frequência e Duração do Tratamento
Na análise psicanalítica, as sessões geralmente ocorrem uma ou duas vezes por semana e podem durar vários anos. O foco é explorar profundamente os processos inconscientes e as raízes dos sintomas e das questões existenciais e geradoras de angústia para o sujeito, como a Morte, o Sexto, o Amor a Agressividade, o Desejo, entre outros... Já na psicoterapia, a frequência e a duração das sessões podem variar, podendo ocorrer semanalmente ou em intervalos mais espaçados. A duração do tratamento também pode ser mais curta em comparação à análise psicanalítica e normalmente há um contrato definindo um número estipulado de sessões no início do acordo entre terapeuta e paciente.
Psicoterapeuta x Psicanalista
Existem diferentes profissionais que podem atuar como terapeutas. No entanto, os psicólogos e psiquiatras possuem uma formação específica em relação ao comportamento humano. Suas especializações irão determinar as abordagens e estratégias utilizadas durante as sessões de terapia. Para se tornar um psicanalista, não é necessário que o profissional seja graduado em psicologia ou medicina. Ele pode ter formação em qualquer área, desde que faça formação em psicanálise. A formação em psicanálise é composta por um tripé que compreende o estudo teórico, a análise pessoal e a supervisão clínica. Uma formação em psicanálise é sempre uma formação continuada, de modo que nunca está completa. Pode ou não estar vinculada a uma escola/instituto de psicanálise e não está atrelada a nenhum tipo de título ou certificação, mas sim ligado a um processo de ética e autorização pessoal que passa pelos 3 elementos do tripé. Comummente diz-se que um psicanalista se torna psicanalista à partir da sua própria análise e do seu desejo de analisar. O Christian Dunker tem um video excelente sobre o tema.
Por fim... Tanto a análise psicanalítica quanto a psicoterapia são valiosas formas de tratamento psicológico, mas diferem em seus fundamentos teóricos, objetivos, frequência das sessões, papel do terapeuta, foco terapêutico, recursos técnicos/materiais e formação. É importante considerar suas necessidades, objetivos e preferências pessoais ao escolher a abordagem mais adequada para você. Um profissional de saúde mental qualificado poderá orientá-lo nessa decisão e fornecer o suporte necessário para o seu processo terapêutico.




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